Fique por Dentro

O império brasileiro do Malte


Lílian Cunha – O Estado de São Paulo – 23/01/2011 (Fotos Ademir Zanin/Divulgação)

No Paraná, descendentes de alemães transformaram uma vila agrícola em um território de mansões, graças à Agromalte, 10ª maior maltaria do mundo

Quem abre uma cerveja não imagina que boa parte do principal ingrediente da bebida vem de uma cooperativa perdida no meio do Paraná, fundada por alemães perseguidos após a Segunda Guerra Mundial e que hoje moram em mansões cercadas por plantações de milho, trigo e – principalmente – cevada.

Esses alemães são os suábios, etnia que, desde sua origem, no século 12, migrou inúmeras vezes ao longo do Rio Danúbio.  Em 1951, com os comunistas em seu encalço, 500 famílias suábias migraram para o Brasil.  No mesmo ano, fundaram em Entre Rios, distrito de Guarapuava (PR), a Cooperativa Agrária Agroindustrial, controladora da Agromalte - hoje a 10ª maior maltaria do mundo e a principal fornecedora de malte da Ambev, Petrópolis, Heineken e Schincariol.  De cada 100 litros de cerveja produzidos no Brasil, 22 levam malte da Agromalte .

A maltaria é a galinha dos ovos de ouro dos suábios.  Responsável por pouco mais de um terço das vendas de R$ 1,3 bilhão da Agrária, a empresa fez do distrito de Entre Rios uma espécie de “Coral Gables paranaense”, onde só se fala alemão.  Mas ao contrário do bairro chique de Miami, as mansões de Entre Rios, não são cercadas pelo mar – e sim pelas lavouras.

“Aqui é o melhor lugar do mundo para morar”, diz Rose Jungert, 38 anos, esposa de um dos 544 cooperados da Agrária.  Em um português com sotaque alemão (lá, a língua mãe é o dialeto suábio), Rose, que sempre morou no distrito, explica que ela e o marido plantam cevada, trigo e aveia. Tudo é mecanizado e a plantação fica a menos de um quilômetro da casa onde moram – “que não é das maiores do distrito”, diz ela.


Mas, em Entre Rios, uma casa modesta não tem menos de 300 metros quadrados de área, um grande terreno com jardim, garagem para mais de três carros (além do trator, claro) e – em alguns casos – lagos artificiais e cascatinhas.

O distrito é formado por cinco colônias, onde ficam mansões e algumas casas “mais modestas”, como a de Rose.  As ruas são avenidas largas e, em todo cruzamento, há uma rotatória com flores bem cuidadas.  As calçadas são amplas e lembram o campus de alguma grande universidade.  Placas são escritas em alemão e em português.

As colônias estão dispostas em forma de anel, com 25 quilômetros de extensão total e lavouras ao redor.  O desenho foi copiado de cidades do interior da Alemanha e implantado logo que os suábios chegaram, em 1951, explica Marcio de Sequeira, presidente da Associação Central para o Desenvolvimento de Entre Rios – entidade que encabeça o movimento de emancipação do distrito de cerca de 10 mil habitantes, 864 km quadrados de área urbana e 140 mil hectares de rural.

Como não é cidade, Entre Rios depende de Guarapuava.  Mas só no papel.  A cooperativa cuida de tudo no lugar.  ”Anualmente, a Agrária gasta US$ 3 milhões na manutenção do distrito”, afirma Sequeira, natural de São Paulo, mas casado com uma suábia.  Toda a riqueza do distrito vem da cooperativa e da maltaria.

Antarctica.
A Cooperativa Agrária só começou a dar lucro nos anos 60. Até então, os imigrantes tinham uma vida simples, em casas de madeira.  A bonança chegou na década de 80, quando a extinta Companhia Antarctica propôs parceria para a construção da maltaria.

Os suábios aceitaram o desafio e a Agromalte foi inaugurada em 1981, com capacidade para 54 mil toneladas de malte ao ano.  A relação entre as partes, porém, não durou.  Os suábios achavam que o malte estava barato demais.  A cervejaria, por sua vez, queria custos menores para vender cerveja mais barata.  Três anos depois, a parceria acabou e os suábios assumiram sozinhos a maltaria.

De lá para cá, o mercado nacional de cerveja triplicou: saltou de quase 4 bilhões de litros em 1984 para 13, 3 bilhões em 2011.  A maltaria cresceu quase na mesma proporção.  Produz hoje 220 mil toneladas de malte por ano.  Sua última ampliação foi em 2009, quando fabricava 140 mil toneladas.  Há planos de chegar ao final de 2013 com potencial para 300 mil toneladas ao ano.  O investimento, de R$ 80 milhões, será feito por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“A maltaria é um negócio muito delicado”, diz Frank Nohel, gerente da Agromalte .  ”O Brasil não tem tradição no plantio de cevada.  Por isso, metade do que o mercado precisa vem da Argentina, o que faz o negócio depender não só de intempéries agrícolas, como também do dólar”, diz.

Sem incentivo do governo, o agricultor brasileiro não se arrisca a plantar culturas pouco conhecidas por aqui, como a cevada, explica Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo.  ”Por isso há tão poucas maltarias no País”, diz.

Hoje, no Brasil, existem apenas duas maltarias além da Agrária.  Uma é a Malteria do Vale, em Taubaté (SP), com produção de 105 mil toneladas ao ano.  A outra é a Maltaria Navegantes, na capital gaúcha, que pertence à Ambev e produz cerca de 90 mil toneladas anuais.  A cervejaria deve inaugurar em julho sua segunda unidade, em Passo Fundo (RS), com capacidade de 110 mil toneladas de malte por ano.

Em Entre Rios, a cevada é uma das principais culturas.  A cooperativa também produz milho, trigo e soja.  A Cooperativa também fabrica ração animal.  Somando todas essas atividades e o faturamento da Agromalte , a previsão de vendas para este ano é de R$ 1,6 bilhão.

“A Agrária não é a maior cooperativa do Brasil, mas com certeza é a mais rica”, diz Sequeira, que faz uma comparação com a Cooperativa Agropecuária Mourãoense, a Coamo.  ”Eles são a maior cooperativa da América Latina e faturam mais de R$ 5 bilhões.  Mas a Agrária tem só 544 cooperados para dividir o bolo. ” A Coamo, por sua vez, tem 23,5 mil associados.

Divisão.
Mas nem todos os moradores de Entre Rios têm uma vida confortável como a dos descendentes de alemães.  ”Aqui em Entre Rios é assim: da avenida Paraná para lá, é o espaço dos alemães.  Para baixo, é a Vila dos Brasileiros”, explica o estudante Ramon Martins, 15 anos.

Na vila não há gramado, avenidas largas nem mansões. É um bairro pobre, sem esgoto, igual aos de muitas cidades brasileiras.  ”Aqui, fica cada um no seu canto”, diz Miguel Ribeiro, 59, funcionário aposentado da Agromalte.  Quando alguém ultrapassa o limite, chama atenção.  ”Se a gente para na frente da casa dos alemães, eles chamam a Linger”, diz Ramon.  Linger é a empresa de segurança privada de Entre Rios.  Faz a patrulha para os suábios, custeada pela Agrária.

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